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IESALC Informa
Boletín Nro. 186

Entrevista com Sueli Pires:
A principal barreira que impede a formação de um sistema regional de credenciamento de pós-graduações é a influência que ainda persiste dos modelos dos países desenvolvidos sobre os nossos sistemas da ALC.


Entre as recomendações formuladas no Plano de ação da CRES 2008 dirigidas aos governos da América Latina e do Caribe, encontra-se a promoção da expansão da cobertura na Educação Superior, tanto em estudos de graduação como de pós-graduação, com qualidade, pertinência e inclusão social. O objetivo é incrementar a cobertura com padrões de qualidade adequados, até alcançar a meta de 40% até o ano 2015, levando em consideração que a cobertura bruta média para a região é atualmente de 32% e a média dos países desenvolvidos é de 55%.

UNESCO-IESALC entrevistou a Dra. Sueli Pires, quem foi co-coordenadora do livro Hacia una política regional de aseguramiento de la calidad en la Educación Superior para América Latina y el Caribe recentemente publicado.

A senhora observa alguma implicação imediata das recomendações feitas no livro Rumo a uma política regional de garantia da qualidade na Educação Superior para a América Latina e o Caribe que recém?

As recomendações feitas no capítulo 3 do livro " Rumo a uma política regional de garantia da qualidade na Educação Superior para a América Latina e o Caribe ", em quase sua totalidade e substância, foram praticamente incorporadas ao texto final da Declaração da CRES 2008 e, de forma similar, ao Plano de Ação respectivo. Além das agências de credenciamento e avaliação de ALC já estarem trabalhando em vários dos temas pautados, no capítulo mencionado se constata uma boa vontade dos atores - governos, agências, das redes e universidades – em realizar algumas das medidas necessárias para a verdadeira integração das pós-graduações. Por outro lado, deve-se considerar que alguns dos desafios assinalados no mesmo capítulo não serão resolvidos a curto prazo. Embora sejamos otimistas, há medidas que dependem de uma série de articulações – internas ou externas aos países – sobretudo quando se referem à reformulação das leis e à busca de orçamentos para cumprir tal finalidade. Entretanto, as novas necessidades que surgem com frequência impõem, por sua vez, atitudes e soluções inovadoras por parte de todos os atores envolvidos nos processos educativos em nível superior.

O seu artigo destaca as diferenças entre os sistemas a partir da metodologia dos processos de credenciamento e das instituições que os realizam. Na sua opinião, qual é a principal barreira que impede a formação de um sistema regional de credenciamento de pós-graduações?

Falando com toda sinceridade, a principal barreira é a influência que ainda persiste dos modelos dos países desenvolvidos sobre os nossos sistemas da ALC. Não é uma tarefa fácil e também não é imediata a construção de padrões de qualidade dotados de uma identidade propriamente latino-americana e caribenha em um contexto de mundialização do conhecimento, sobretudo quando se pensa nas pós-graduações e na investigação, mas, aos poucos, vamos avançando na concepção e aplicação mais apropriados às nossas múltiplas realidades políticas, socioeconômicas e culturais.

O credenciamento é uma característica da educação nos países em desenvolvimento?

O credenciamento é uma tendência mundial e também se aplica à nossa região. A principal motivação do fato deve-se a dois fatores: a globalização e a expansão massiva da educação superior. É, além disso, uma necessidade que se impõe aos países e regiões para permitir o reconhecimento público e o diálogo entre os distintos sistemas educativos. Por outro lado, o que deve ser evitado é a preponderância dos critérios e procedimentos que atendem de forma prioritária os interesses dos países desenvolvidos sem considerar as diversas necessidades dos países em desenvolvimento.

Como vincular o resultado dos processos de credenciamento com seu acatamento a partir das Instituições de Educação Superior?

Em primeiro lugar, é necessário diferenciar os processos de credenciamento nacionais que ocorrem de maneira voluntária ou compulsória por parte das instituições dos que são aplicados pelos organismos internacionais. Entretanto, em ambos os casos as instituições que se inscrevem em tais processos têm um enorme interesse em obter a melhor qualificação possível, já que ganharão credibilidade e visibilidade internamente em seus países ou no mundo acadêmico internacional. O que acontece em alguns casos é que, se uma instituição de educação superior qualquer não obtiver bons resultados em um processo de credenciamento específico de seu país, normalmente participará de outros processos de credenciamento externos como uma estratégia de validação de suas políticas e atividades. Na minha opinião, estes meios alternativos, se por um lado contribuem para o fortalecimento das instituições, por outro lado geram fragmentações nas políticas educativas dos estados membros e, consequentemente, da política regional de garantia da qualidade.

Qual é a transcendência da escolha do uso de uma metodologia qualitativa sobre a quantitativa ou vice-versa, nos processos de credenciamento?

O ideal seria sempre desenhar e aplicar uma metodologia de equilíbrio entre os critérios qualitativos e quantitativos de avaliação e credenciamento. Entretanto, constata-se a transcendência da metodologia quantitativa sobre a qualitativa como um instrumento de aplicabilidade mais imediata e mais ampla nas instituições e carreiras. Sem dúvida os critérios quantitativos favorecem um maior grau de comparabilidade entre as instituições e as carreiras, gerando maior confiabilidade e celeridade nos processos. Os critérios qualitativos, por sua vez, permitem um conhecimento mais aprofundado e particularizado das propostas educativas levadas a cabo em cada instituição ou carreira, propiciando formas de aperfeiçoamento e crescimento qualitativo sem vinculação restrita à expansão quantitativa.

Para acessar a versão en PDF do livro, clique aqui.

Dra. Sueli Pires

A professora Sueli Pires é Diretora de Gestão do Conhecimento do Instituto Inhotim . A Dra. Pires foi Diretora Adjunta da UNESCO-IESALC durante os anos de 2006-2008 e coordenadora da investigação que deu origem ao livro Rumo a uma política regional de garantia da qualidade na Educação Superior para a América Latina e o Caribe. Ex-Pró-Reitora de Pós-graduação da Universidade Federal de Minas Gerais no Brasil.

 

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